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segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Tudo o que eu queria dizer, mas não consegui organizar



Greve: ações coletivas e decisões individuais

01/12/2008 - por Paulo Ricardo Tavares da Silveira
Tomar decisões individuais fora do coletivo é alimentar a lógica do poder
O ato de escrever não é meramente exibicionista, isto é muito pouco para significar uma atitude pensada e reflexiva. Para quem escreve com "sangue", como diz Nietzsche, é muito mais uma tentativa de acalmar o espírito, de colocar em ordem idéias que volta e meia aparecem em nossa mente durante o dia. É assim que esta questão da greve do magistério estadual vem tomando de assalto meus pensamentos. Estou lendo um livro de Zigmunt Bauman, "Modernidade líquida", onde ele faz um contraponto entre "escolhas individuais" e "ações coletivas". O sociólogo polonês me inspirou a escrever estas linhas.
O dicionário Houaiss diz que greve é a "cessação voluntária e coletiva do trabalho, decidida por assalariados para obtenção de benefícios materiais e/ou sociais, como melhoria das condições de trabalho, direitos trabalhistas, etc, ou ainda para se garantirem as conquistas adquiridas que, porventura, estejam ameaçadas de supressão". Quem observa hoje (que não é só de hoje) a situação do magistério, a greve parece ser o antídoto ideal.
Para que uma greve exerça o seu papel ela precisa ter poder de gerar um impasse, um enfrentamento de forças opostas. Então o Governo declarar que a greve do magistério foi num momento impróprio é desconhecer o funcionamento deste mecanismo social. Ao se sentirem ameaçados em suas conquistas os professores entram em greve. Algumas escolas 100% de aderência. Uns por uma consciência coletiva, cientes das conquistas da categoria, outros nem tão conscientes assim. No outro extremo, outras escolas fazem de conta que nada está acontecendo. E ainda fazem questão de se expor na imprensa, como se fizessem parte de outra categoria profissional, talvez mais privilegiada do que aquela dos grevistas.
No meio destas duas posições estão aqueles que fazem de conta que descobriram "a" verdade e tomam decisões individuais, sem nenhuma justificativa plausível. Ação coletiva como uma greve reforça a categoria, gera politização profissional, aproxima os colegas, mostra que o professor não tem apenas conteúdos a ensinar, e sim atitudes. Considerar as decisões das assembléias da categoria é o mínimo que se espera de um professor que acredita nos mecanismos da democracia.
Porém, sempre tem um porém, não existem apenas ações coletivas, e sim também decisões individuais. Enquanto o Sindicato dos Professores tenta um diálogo em nome da categoria, a governadora responde com um ataque pessoal no bolso do professor. Acredito que nem Maquiavel tinha cogitado isso. Para uma ação coletiva se contra-ataca com uma decisão que afeta covardemente cada professor individualmente. É assim que entendemos esta volta dos professores as suas atividades. E é isto que a governadora espera, que estas pequenas decisões individuais minem as ações coletivas.
Tomar decisões individuais fora do coletivo é alimentar a lógica do poder instituído. Estas atitudes colocam professor contra professor, direção contra professor e professor contra direção de escola. Respeitar a dimensão coletiva da categoria é sinal de maturidade intelectual e pessoal. Da parte dos professores, aqueles que entraram em greve por uma mera decisão individual, saem da greve também por uma mera decisão individual.
O que não se diz é que as grandes conquistas individuais que a humanidade alcançou foram todas conquistas coletivas, que cobraram sacrifícios. Assim, tomar decisões individuais desconectadas de ações coletivas é no mínimo desconhecer a sociedade em que vivemos. E quem não conhece em que tempo vive deixará muito pouco para seus filhos, netos, bisnetos...

Paulo Ricardo Tavares da Silveira é professor de filosofia* Artigo publicado no Jornal do Povo, de Cachoeira do Sul

Um comentário:

Pensamentos, Palavras e Omissões disse...

Sempre defendi a idéia de pensar como categoria, mas parece que não consigo me fazer entender pela maioria.
Se é uma assembléia que decide pelo início da greve, não podemos nós, individualmente, agir de forma diferenciada. Temos a obrigação moral de apoiar o que foi votado por nossos pares.
Poucas são as pessoas que se dispõem a sair de madrugada, viajar para uma assembléia, votar, correr riscos, trabalhar pela categoria. Então, como pode-se contrariar um grupo, nada pequeno, que luta pelos direitos de todos? Na hora de usufruir dos louros, todos ficam felizes. Quando as vitórias não são as esperadas, inúmeros sabem criticar. Mas na hora do "pega pra capar" poucos são os que realmente se comprometem com a luta.